Costuma-se dizer que hoje é o "dia do psiquiatra". Algumas pessoas desejam parabéns, falam da importância da gente, de como a gente é necessário e que devemos falar sobre saúde mental. Cansei de escutar: "velho, deve ser muito difícil ser psiquiatra."
E é difícil mesmo. Para alguns. Para quem realmente se propõe a cuidar da saúde mental do próximo.
A realidade é que escolher psiquiatria virou moda e sinônimo de "boa qualidade de vida" — do trabalho das 08h às 17h, de segunda a sexta-feira. Essa virada na percepção da classe médica parece ter ocorrido a partir da pandemia — talvez um pouco antes. Com todo mundo trancado em casa, trabalhar via teleconsulta era uma boa alternativa a estar nos plantões caóticos e desesperadores.
Junta-se a isso: psiquiatria é uma especialidade altamente instagramável. Discute-se platitudes, algumas pessoas dão dicas de como lidar com determinada situação, reduz-se a complexidade do outro a alguns posts e reels e, voilà, temos uma página de Instagram com seus 10–20 mil seguidores. Tudo isso para redirecionar para o consultório, obviamente.
Não quero advogar por um intelectualismo barato, mas psiquiatria não é essa autoajuda com "sabor" coach, assim como não é tão simples como um conjunto de sinais e sintomas que vai enquadrar você dentro de um transtorno como o manual diagnóstico faz parecer.
A psiquiatria se insere em um meio de caminho bem peculiar. É a mais "humanas" da saúde e a mais saúde das "humanas". É preciso entender bem de neurociência e biologia, mas ao mesmo tempo compreender filosofia, antropologia, sociologia. É preciso abraçar as artes, assistir um filme, ler um livro. É importante viver e se dispor a escutar as diversas experiências humanas — que são, com toda a certeza, extremamente complexas.
É importante ser crítico, contrapor o paciente e, muitas vezes, frustrá-lo com limites. Escutei muito da minha chefe:
— André, o limite é terapêutico.
Por outro lado, falar de saúde mental iniciou um processo saudável de as pessoas procurarem se cuidar. Isso é ótimo. Porém, nem todo mundo precisa de um diagnóstico, de um transtorno específico, para cuidar da mente. Só que isso também virou moda. Tenho certeza de que você já deve ter visto aquele infame vídeo em que jovens faziam chá revelação de diagnóstico psiquiátrico.
Somado a isso, vivemos em um mundo extremamente difícil de ser vivido. Salários cada vez mais apertados, aluguéis nas alturas, supermercado caro, um processo de pejotização e uberização do trabalho, um mundo de aparências nas redes sociais onde todo mundo é feliz. A barra está cada vez mais alta. Estímulos em excesso — vivemos cada vez mais enterrados na tela do celular. Estamos perdendo a capacidade de socializar, de manter a atenção. O importante é tentar achar o fim do feed infinito.
Nesse cenário, surgem dois transtornos que conseguem "justificar" tudo isso. Se eu não presto atenção, sou TDAH. Se não consigo socializar direito, sou TEA. Justamente as habilidades que o mundo atual nos tem tirado. Cabe lembrar: é difícil ser social, é difícil manter concentração. Não é um dom com o qual nascemos, mas algo que construímos e desenvolvemos. No mundo tecnológico em que vivemos, parece que as pessoas estão com preguiça de seguir esse caminho.
Nesse ponto, existe um movimento interessantíssimo que está sendo deturpado: o de direitos aos portadores de neurodivergência — legítimo e necessário. Por favor, não confundir o que estou dizendo com uma crítica às pessoas que realmente são neurodivergentes e sofrem com essas condições. Pessoas sem qualquer traço neurodivergente buscam o diagnóstico para garantir esses direitos — quem não quer comprar um carro com 30% de desconto ou garantir tempo extra de prova?
Aí, veja só: você junta psiquiatras rasos com pessoas extremamente adoecidas — mas não neurodivergentes — e a mistura é catastrófica. O que vemos é uma banalização diagnóstica com uma profusão de laudos frágeis carimbando um transtorno no outro. Muitas vezes, essas pessoas são bastante demandantes, às vezes grosseiras, e procuram o profissional para validar suas impressões de Google — ou, mais atualmente, de ChatGPT. Pode ter certeza: vai existir o profissional que dará esse diagnóstico equivocado por causa da pressão alheia. O importante é fazer o cliente — e não mais o paciente — feliz.
Então, hoje, 13 de agosto de 2026, não sei o quanto feliz fico por ser o dia do psiquiatra. Nossa profissão está cada vez mais relevante para a sociedade, mas cada vez menos consegue demonstrar aos postulantes as dificuldades reais e o que é ser um psiquiatra crítico. E aí? O que fazemos? Não tenho essas respostas, nem pretendo ser a última palavra nisso. Você pode discordar de tudo isso — e está tudo bem. Mas, para você que leu e fez sentido: tenha certeza de que não está sozinho nesse sentimento.